UM PESADELO ME FEZ FELIZ

 

Num primeiro momento você pode me achar um gozador. Como um pesadelo, algo tão desagradável, pode deixar alguém feliz? Até eu mesmo pensaria dessa forma se não tivesse vivenciado essa passagem inóspita e tão prazerosa.

 

Certa noite deitei-me por volta das 23h30min. e, como de hábito, deparei-me com aquela tremenda dificuldade de sempre em pegar no sono. Lá pelas tantas, cansado e já irritando com a insônia, acabei finalmente por adormecer e comecei a sonhar. No sonho atendi ao celular. Era minha companheira, dizendo que eu estava muito bem na foto. Que ela estava vendo minha foto em um periódico, vinculada a uma notícia de que eu não passava de um ladrão.

 

Aquilo me deixou atordoado. Lembro-me como se real fosse, que saí em disparada para procurar o tal jornal e quando o encontrei e folhei... bingo, dei de testa com minha própria imagem, estampada em um pasquim de quinta categoria e associada a uma notícia de que eu acabara de ser denunciado sobre um possível furto. O pesadelo já estava formado. Senti, em sonho, que a minha face e orelhas se avermelharam, o sangue ferveu nas veias, o ódio se apoderou dos meus pensamentos, afinal, como alguém poderia levantar tão levianamente uma mentira dessa natureza que atingia diretamente minha honra e reputação? O que meu pai iria pensar? Meus filhos e amigos? Colegas de trabalho? Pronto estava arruinado, naquele fenômeno psíquico encontáva-me em pânico.

 

Ainda no sonho alguns dias já haviam passado e eu com aquela amargura, querendo revidar, trucidar, não falava com minha esposa, não dava atenção ao meu caçula, não queria saber de tratar dos passarinhos tão pouco das galinhas e também não dispunha de ânimo para brincar com meus cães. Arre, como pode um único pesadelo levar-nos ao inferno em tão pouco tempo, sabendo que esses fenômenos duram em média de 10 a 15 segundos, mas que para nós parece uma eternidade? E aquela obsessão por vingança me consumindo, aquele “fervo” pela mente e pelo corpo, quando de repente sinto minha musculatura relaxar. Fui-me acalmando, aquele peso que em sonho há dias eu carregava na “cacunda” foi sumindo, aqueles pensamentos tiranos foram deixando minha mente e uma profunda paz foi adentrando por aquele pesadelo. Pena, agora que começava a ficar bom, já estava quase acabando.

 

Cego pela ira que o sonho me impunha, não havia percebido que na realidade, aquilo tinha um lado extremamente gratificante. De alguma forma meu subconsciente trabalhando insistentemente para tirar-me daquela pressão, mostrou-me outra forma de encarar o problema.

 

Passei a me sentir melhor quando percebi que não havia sido eu quem tinha levantado falso testemunho. Percebi que minha família entenderia uma falsa acusação, mas jamais me perdoaria se tivesse sido eu o caluniador. Entendi que minha família e amigos não teriam vergonha por ver meu nome jogado na lama, pois eles realmente me conhecem, mas com toda certeza me reprovariam, veementemente, se eu aquilo tivesse feito com alguém.

 

Pronto. Como num passe de mágica aquele pesadelo havia me tirado de uma tormenta e apresentava uma verdadeira e honrada saída. Dei conta de como eu poderia ser feliz só por ter a consciência de que a razão está acima da ambição, de que as críticas profissionalmente recebidas devem ser  profissionalmente rebatidas ou, aceitas como construtivas. Posso ser feliz tendo a consciência de que podem e devem existir opiniões divergentes das minhas e que isso é salutar para o crescimento pessoal e de uma sociedade, feliz por não ser eu o exemplo, o mau exemplo, de alguém frustrado, amargurado e rancoroso.

 

Eu já não mais queria acordar. Em sonho, mas copiando a realidade, eu também havia nascido sem a habilidade de crer no sobrenatural. Passei então a agradecer muito alegremente ao Dr. João e à minha falecida Dona Leidinha por terem, um dia, trazido à luz alguém que coleciona muito mais fracassos que sucessos, muito mais derrotas que vitórias, infinitamente mais defeitos que qualidades, mas que entendeu que a diferença entre viver e, meramente se manter vivo, está no caráter de cada um.

 

E assim acordei, feliz com um pesadelo.

 

 

OBS: Esse texto tem a inspiração do inigualável Darcy Ribeiro, através de uma de suas crônicas